Meu ultimo texto do ano fala sobre padrões e esteriótipos. Nos prendemos a eles sem nem perceber, julgamos, somos julgados, nos machucamos e ferimos por conta de conceitos que nos limitam e nos sufocam; o caminho para felicidade felizmente é diverso e só depende de nós e do nosso entendimento em relação a isso. Dedico a toda mulher que não casou, não teve filhos ou casou e não teve filhos vivendo assim uma rota diferente da rota que a maioria tem como única na direção da felicidade. Para chegar nela, não há receita nem um só caminho. A questão é muito mais complexa e desafiadora. Felizes são os que tem essa percepção. Espero que vocês gostem!

Há três semanas me deparei com um texto que me tocou demais. Escrito por uma fotógrafa e ilustradora francesa chamada Garance Dore ( sou fã há anos, a conheci em meus tempos de Aliança Francesa e até hoje leio o blog dela para praticar meu francês enferrujado rs), o texto fala sobre divórcio, filhos, no caso a falta deles e as reações diversas que ela constatou ao contar que estava separada. Além da narrativa super construída, o texto nos trás  leveza, humor e empatia e é por tudo isso que me tocou. Ela começa dizendo que se separa aos 43 anos, idade na qual muitas pessoas se separam por configurar uma etapa da vida que você já se conhece bastante e que verdades antes absolutas advindas da juventude caem por terra, dando espaço a novas buscas e descobertas. Já li outras pessoas dizendo o mesmo sobre os “enta” rs! E o mais bacana do texto para mim foram as narrativas de diversas pessoas sobre o assunto:

1-O ex antes do último ex:

Ele: Sinto muito por vc Garance!

Ela: Estou bem. Precisávamos disso, as coisas estavam estagnadas… foi uma boa decisão.

Ele: Entendo, mas força! O amor virá pra você!

Ela: Não estou esperando o amor chegar! ( ela responde irritada)

2-Uma vizinha:

Vizinha: Meu Deus! Estou desolada! Como isso foi acontecer? Vocês eram tão felizes….

Ela: Obrigada, mas as coisas muitas vezes não são o que parecem…( interrompida por ela)

Vizinha: Isso acabou comigo! Sinto muito…

Ela: Está tudo bem…

Vizinha: Mas é definitivo mesmo?

Ela: Sim, preciso ir.

3- A prima:

Prima: Meu Deus! Você achará um cara agora!

Ela:     Estou bem; nunca fiquei solteira por um período…acho importante ficar sozinha!

Prima: Sim, mas e o sexo! Você precisa de sexo! Já sei! Tenho um amigo, lindo, não muito inteligente mas para uma noite e nada mais está ótimo…. Tenho o celular dele aqui…um minuto.

Ela:  Não! Esqueça, estou ótima!

4- A amiga( super mãe de família, vive para os filhos, ama a dinâmica e engravidou depois de inúmeras fertilizações:):

Amiga: E agora? O que vc vai fazer agora?

Ela: Tirar um tempo pra mim, no futuro quem sabe posso fazer uma produção independente ou desistir da ideia de ser mãe…

Amiga: Olhe, se você não engravidar em um ano, você irá querer se matar!

Ela: Pare com isso! Minha identidade como mulher não vem da maternidade.

Amiga: Ok, se você está bem com isso…

A sociedade:

Essa seria a pior parte para ela. E como sociedade, entendemos todos nós. Todos os julgamentos e rótulos que se usam por aí para uma mulher com mais de 35 anos sem filhos. Talvez ela escutaria que preteriu a vida pessoal a vida profissional. Ou que pagou o preço pela carreira bem sucedida ou que não teve sorte no amor….todos esses tipos de besteira que são proferidos todos os dias em contextos diversos. Mais uma como a Jeniffer Aniston, pobre Jeniffer tão sem sorte no amor… e como ela nunca havia mencionado seus problemas de fertilidade, ela sabia que este tema também viria à tona. E aí ela usa um termo que amei ( glimpses of condescension) e imediatamente lembrei de ter sentido esses olhares também. Poucos, mas existiram; inclusive uma ligação telefônica em que senti até um tom alegre na voz da “amiga” quando contei: sim, estou divorciada. É  um olhar um pouco de canto de olho, sorriso que tende aparecer mesmo que meio tenso pois aquela aparente “tragédia” na vida da pessoa conforta a vida de quem escuta de certo modo pois ela sente-se melhor com a própria vida que deve (só pode) estar uma droga!  E aquela pessoa protagonista da “tragédia” na verdade assusta a “ouvinte” que morre de medo de passar por aquilo que a pessoa está passando… Eu nunca tinha processado tais reações e suas origens até eu ler esse trecho do texto dela. Ela também confessa lindamente que está vivendo algo que ela sempre temeu: viver sozinha e que mesmo assim está mais calma e muito mais em paz do que antes e que a maturidade nos liberta e nos faz perceber que NÃO DEVEMOS NOS PREOCUPAR com a opinião dos outros! Ela completa: Todos nós sabemos que há casais juntos para não dividirem patrimônio, por comodidade, pelos filhos… Pessoas infelizes nas carreiras sem coragem de mudar o rumo ou  pessoas ríquíssimas e tristes. Pessoas em que a vida no Insta é pura felicidade mas na real, a coisa está muito longe disso. E por trás de muitos desses casos há a projeção tão sonhada, criada e reproduzida exaustivamente na literatura, na mídia, no cinema; ser feliz é ter uma casa linda, um marido lindo, crianças lindas, um golden lindo e uma SUV grande e também linda. ( dois últimos adicionados pelas minhas fantasias fazendo uma colab com a Garance rs). E é por tudo isso que vemos tantas mulheres se segurando infelizes, se equilibrando na tal “corda da perfeição”. Por fim, ela ressalta que uma ruptura ou divórcio pode ser um momento especial de descobertas e amor próprio. Diz que a tristeza é tão bonita e importante como a alegria e deve ser vivida. Você pode ser incrivelmente feliz casada e com filhos ou super infeliz tendo marido e filhos. Não há receita  e felizmente não há um só caminho. Ela ainda acrescenta que os medos dela estão como os medos dos livros infantis… amedrontam muito, mas não passam de sombras aumentadas por ela mesma.

O texto termina de forma deliciosa com três últimas reações agora positivas!

1- Uma desconhecida que ao saber do divórcio, diz: “Fantástico!” e conta a ela que também  terminou um casamento infeliz aos 42 anos. Seguiu com 2 filhos para um apartamento pequeno pois preferiu isso a ser infeliz em um apartamento enorme. Não tinha plano nenhum de ter um outro relacionamento mas conheceu um cara incrível e teve um outro filho.  E ela tem agora 47 anos.

2-Um amigo querido que a presenteia com o presente da ruptura!  Deixou uma caixa com sálvia, lavanda, um livro e frutas junto de um bilhete na frente da casa dela: “para novas aventuras. Assinado: seu novo capítulo! “

3-Veronica, colega de trabalho que manda um email para Garance a cumprimentando e diz que não expressa lamentações a mulheres divorciadas. Ela tem certeza de que o processo foi tão longo e tão dolorido que só resta parabenizar e desejar coisas incríveis pra essa mulher.

Minhas reflexões.  

Esse texto me encantou e me fez pensar muito. Confesso meio envergonhada já ter me comportado como a vizinha por exemplo ao saber de uma separação. Recentemente dei um presente de ruptura para uma grande amiga e ela simplesmente amou! Já me senti como a Garance mesmo tendo me separado com filho; me senti um vaso sem a prateleira certa por um bom tempo. Felizmente reagi como Garance ao entender que NINGUÉM tem nada a ver com a minha vida e ponto.  Tenho grandes amigas que não tiveram filhos ou que não se casaram e volta e meia converso com elas sobre padrões e “necessidades” que nos são impostas pela sociedade. Somos especialmente cruéis conosco mesmas e o posicionamento firme diante destes estereótipos se faz ainda mais necessário. Uma leitora me escreveu recentemente me contando que os pais, especialmente a mãe, esperam que ela se case novamente um dia já que o ex-marido que a deixou refez sua vida novamente. Essa leitora me disse que foram horas de conversa densa explicando para os pais que ela e o filho a bastavam, que ela não tinha vontade de casar novamente….enfim, aquela luta pra mostrar que está tudo ótimo e que um segundo casamento não faz parte do sonho atual dela mais. Muitas vezes, os estereótipos começam em casa e para quebrá-los, haja conversa e paciência. Vale ressaltar aqui também que tenho visto muito homens separados, morando com a nova namorada pouco tempo depois de relacionamento, enquanto vejo nas mulheres uma maior resistência para o mesmo. Uma amiga dando uma de socióloga em um almoço comigo brincou: “Eles precisam de babá, Tarsila, a gente não! Morri de rir ao ouvir isso e verdade ou não, acho muito interessante essa diferença de postura entre os sexos. Diferenças à parte, o caminho deve ser livre para todos poderem escolher e serem felizes da forma que lhe for melhor. Não existe receita nem formatação única para ser feliz. Se alimente de experiências, de amor, de gratidão pelo que você tem e de autoconhecimento para que seu caminho seja livre, pleno e feliz, independente do seu par e filhos, se eles existirem.