Esta semana tenho um casamento para ir. Amo casamentos. Amo histórias de amor, o ritual, as músicas escolhidas e  principalmente a mesa de doces rs! Adoro pensar no vestido que usarei, no meu cabelo e maquiagem; todos esses detalhes que nós mulheres amamos nos “preocupar”. Mas desta vez, este casamento em particular me tocou de maneira especial. Será um casamento homossexual. Sim, meu primeiro casamento homossexual; respeito a opinião de quem não aceita ou entende esse tipo de relação, mas eu me sinto honrada e privilegiada por testemunhar o mundo mudando e as pessoas sendo verdadeiras e felizes.  Estou me achando super cool rs, curiosa, reflexiva e especialmente contente por saber da  difícil trajetória do casal.

Tento evoluir como ser humano todos os dias por mim e agora pelo Tom. Só eu sei o caminho pesado de evolução que escolhi traçar nos últimos anos por ele, optando por civilidade e respeito como alguns dos meus pilares diários. Sou católica por formação, espírita por coração e uma pessoa que sente necessidade de buscar mais espiritualidade e conhecimento. Amo estudar sobre as diversas religiões, rituais, suas premissas e ensinamentos. Sou aberta e tento filtrar um pouco de cada já que TODAS convergem para o mesmo caminho; evolução e fé. Portanto, acredito que não sou melhor do que ninguém e não tenho o direito de julgar o próximo por conta de raça, gênero ou opção sexual.  Tenho um grupo de amigos diverso e acredito que isso seja fundamental na nossa jornada por aqui como ser humano no sentido de nos tornarmos melhores pessoas e cidadãos inclusive

A palavra preconceito, palavra horrorosa, que nos cerca, nos assusta, nos oprime e nos cala muitas vezes está infelizmente sendo bastante usada nos últimos tempos. Caiu especialmente na boca do povo recentemente por conta de nosso incrível cenário político atual. Sou branca, magra e sempre tive acesso a tudo então não posso ser hipócrita em dizer que já sofri por conta de preconceito. Já devo ter sofrido preconceito sim por ser mulher mas não me lembro de nenhuma situação específica. Apesar desse cenário, tento prestar muita atenção nas questões que afligem outras pessoas…Tento praticar além da empatia, a alteridade que implica em aprendermos com as diferenças dos outros. Tento ler um pouco de tudo e recentemente descobri Djamilla Ribeiro e Rupi Kaur que escrevem lindamente sobre ser mulher, ser negra, ser “menos” perante o olhar do outro entre outras questões… Me comovo com as dificuldades encontradas por meus amigos homossexuais e eu pessoalmente me recuso a optar por um caminho que exclui o outro.

Mas toda essa reflexão sobre preconceito por conta do casamento que irei esta semana me provocou a pensar no pior tipo de preconceito que se pode ter. Eu me deparei com esse sentimento de gosto amargo há pouco tempo. Havia me divorciado há pouco e o rótulo divorciada me incomodava desde o início, ainda no silêncio dos meus pensamentos. Até que em uma noite de sábado, convidada por um casal de amigos queridos, fui a um encontro de amigos de escola de um deles. Não conhecia rigorosamente ninguém a não ser o casal que me levou. E precisei me apresentar e ter aquela conversa inicial do tipo: Sim, trabalho com educação; sou professora e conversa vai, conversa vem, Sou divorciada e tenho um filho. Pausa. Precisei de uma pausa de fato pois aquela frase me desceu de forma tão dolorosa que tal desconforto me surpreendeu. Segui a noite e felizmente consegui me divertir mas aquele sentimento ruim me marcou de forma particular e foi levado para a terapia na semana seguinte.

Depois de uma sessão difícil regada a lágrimas e duras especulações,  me deparei com a conclusão. Sim, eu tinha preconceito em relação a mim mesma por ser divorciada. Me sentia fracassada, diferente, fora do padrão feliz da sociedade. E o olhar de “puxa que pena” das pessoas (obviamente não maldosos) só reforçava meu mal estar.  Tal sentimento é resultado de inúmeros fatores como conceitos pré estabelecidos sobre família, sociedade, sonhos trazidos desde a infância, expectativas aumentadas da realidade, um coquetel potente para que ele surgisse:  voilá, me deparei com o pior tipo de julgamento: aquele que nos faz ser cruéis consigo mesmos.  Pense se você já não passou por isso. Uma dor ao escutar uma pergunta ou um comentário em especial? Hoje, me sinto muito melhor e a frase já é dita de forma natural e sem tanto peso. Todo projeto muito sonhado nos causa certa dor quando desfeito ou não alcançado e a frustração nesse sentido é normal. Hoje estou muito bem felizmente, mas ainda sinto nuances da dor. Quando vejo meu filho dizendo que quer dormir comigo ou que gostaria que a mamãe fosse junto na viagem de final de semana do pai, sinto meu coração doer. Dói pois não fomos feitos  para ver filhos sofrendo e hoje já entendo também que a frase “Sou divorciada” traz consigo um peso intrínseco proveniente desses momentos doloridos independentemente de qualquer tipo de preconceito. Dói e ponto.

Hoje tais sentimentos amargos me incomodam cada vez menos. Aos poucos, fui deixando o “preconceito” bobo de lado e toda vez que me vejo no espelho, sorrio por ver quem eu me tornei. Hoje me acho mais humana, mais sensível, mais flexível, mais forte e Tom, meu pequeno super herói, só tem a ganhar com essa mãe “versão software atualizada”. Nós decidimos quem nos tornamos e quais rótulos nos definirão ao longo da vida. Lembrem-se de serem mais gentis e amorosas com vocês mesmas pois muitas vezes a crueldade começa dentro de nós. Você é mais que um padrão e ser real e viver isso é a melhor “ring light” que pode existir. Sua luz será genuína. Termino dividindo com vocês  uma citação de autor desconhecido mas que adoro: “O que busquei e não encontrei, me tornei”. Sorte nessa busca e se vocês não encontrarem, não desistam e tornem-se. A alegria desse processo é surpreendentemente deliciosa.

20/10/18